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O salmão e a lagarta
Por Henrique José Minatogawa   
07 de fevereiro de 2008

2_thumb.jpgPenso que a bolsa sempre vai ter, pelo menos, dois objetivos: um, é claro, é o estudo ou o estágio. O outro, provavelmente tem alguma coisa que a gente não consegue explicar direito. 

No meu caso, Kenpi Kenshu por Nara Ken (talvez o último, infelizmente), a experiência foi ótima. No começo, dificuldades de comunicação eram muito grandes, mas, aos poucos, foi evoluindo. Os colegas do estágio aprenderam como falar comigo, de um modo simples e devagar. Ao mesmo tempo em que eu acredito ter melhorado um pouco no idioma, graças ao curso que se chama "na marra". 

Em determinado momento, as pessoas me perguntavam: "O que você não gosta do Japão?". A pergunta se referia ao meu cotidiano. A única coisa que conseguia responder era "miruku tii" (Milk Tea). Havia coisas que eu não entendia direito e coisas que eram apenas diferenças em relação ao que estava acostumado no Brasil, mas de não gostar mesmo, de kirai, era Milk Tea.

A maior barreira cultural era o Onsen. Pensava "é coisa típica do Japão, mas se eu não for, não tem problema". Mas o pessoal falava: "Ah, nunca foi? Então você vai!" - sem "kudasai" no final mesmo. No final, fui, e foi, no mínimo, interessante.

Também me perguntavam qual é a imagem dos japoneses no Brasil. Dizia que era a de pessoas honestas, inteligentes, bons de matemática, tímidos, mas também algumas pessoas consideram frios e distantes. Pode ter sido sorte (emprestada da Ayra), mas encontrei pessoas que acredito ter passado dos limites apenas da boa educação e cordialidade.

Mas o tempo é muito curto. Quando as coisas esquentam, chega a hora de ir embora. Aí é a hora do choro, das promessas de se reencontrar um dia, de manter contato e de arrumar as malas. Para o bem de quem ainda está para voltar, recomendo inverter a ordem.

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Talvez por ter morado em Nara Ken, terra de origem do Budismo japonês, pensei muito nos ensinamentos de Buda antes de ir embora, especialmente em um: o desapego às coisas materiais. Mesmo assim, o resultado foi duas malas de uns 30 kg, uma de mão com uns 10 kg, cinco caixas e ¥ 25,000 a menos no bolso, pelo envio de Funa bin. Fora a quantidade de lixo, quase na mesma proporção. "Não subestime a quantidade de coisa que um armário e uma escrivavinha são capazes de guardar em alguns meses" deve estar escrito em algum sutra.

Pode parecer um conselho presunçoso, mas acho que é válido. Fiquem preparados para presentes de última hora. As pessoas têm tanta boa vontade que podem não lembrar que temos limite de peso e espaço na bagagem. E claro que vamos querer trazer tudo.

Caso alguém não saiba (como eu), nos EUA eles, ocasionalmente, arrebentam o cadeado e abrem a mala. A minha chegou aberta, mas não notei falta de nada. 

Faltou escrever sobre o relatório que tive que entregar no final do estágio. Era para escrever sobre o estágio e sobre a rotina, incluindo o curso de Nihon go, passeios dentro e fora de Nara Ken e atividades diversas. Foi muito corrido, claro. Estágio de dia, preparar relatório à noite. No final, perto do prazo, felizmente, tive tempo integral para escrever - em Nihon go. Na própria rotina de estágio, eu tinha que manter um diário sobre minhas atividades, o que ajudou muito. Só que depois da apresentação, aconteceram tantas coisas que acabaram ficando de fora.

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Infelizmente, não voltei com a tal sensação do dever cumprido. Isso porque, pouco antes de vir para o Brasil, soube que a bolsa de Kenshu havia sido cortada. Apesar de entender os motivos do Kencho, fica uma frustração. Agora, é me esforçar no que foi requisitado. 

É verdade que algumas coisas não acontecem como a gente planejava. Mas também muita coisa boa que a gente nem imaginava também acontece.

Alguns momentos especiais que posso escrever aqui:

- Logo na chegada, saindo do aeroporto de Itami, em Osaka, fomos de carro para Nara. Entrando no túnel, era Osaka; saindo, era Nara. A mudança da paisagem, de urbano para inaka, é muito nítida e impressionante.

- As visitas do pessoal. O chato é que na maioria das vezes não pude acompanhar por causa do estágio, mas naqueles momentos, sentia muito que Nara era minha casa e deveria representá-la bem, esperando que os visitantes também gostassem. Então, Maya Kanatani, Diogo, Tiyomi, Yelena (certo?), Mitsuo, Paola, Eiji, Renato Pelizzari, Maya Sassaki, Clayton, Edu e Daniel, ありがとう pela visita! Ou おおきに ¡gracias! спасибо!

- A subida e descida do Fuji, apesar de eu quase sempre reclamar, foi muito marcante. Otsukare, todo mundo que subiu e desceu comigo naquele 13/14 de agosto.

- Fuyu no Kenshu. Foi uma ótima pausa, além de muito interessante sob muitos aspectos.

- Ir para as três províncias dos meus avós: Okinawa, Nagasaki e, claro, Nara. 

De momento difícil, é a preocupação com a família, sem dúvida. Algum tempo antes de eu ir ao Japão, meu pai teve que fazer quimioterapia, o que quase me fez desistir da bolsa. Mas ele disse que era para eu ir. As sessões terminaram enquanto estava no Japão. Mas, alguns meses depois, veio a notícia que seria preciso radioterapia. Para mim, era sempre uma dúvida até que ponto estavam me contando as coisas, se estava correndo bem mesmo. (...)

Cheguei há alguns dias, ainda não me acostumei direito ao fuso. Sinto falta da comida japonesa, de pessoas falando em Nihon go na rua, das placas e de tudo que não sabia ler. De tanta coisa. Mas chega a hora de voltar, nossa família aqui, amigos, procurar emprego, resolver o que fazer... Eventualmente, retornaremos ao Japão.

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Mas voltamos mais fortes e, espero, mais sábios. Como disse o tantosha "Ó, você vai ter que ir para Osaka, amanhã sem falta,  nesse endereço. Precisa pegar trem, depois metrô e andar. Daijyobu? Ah, você foi para Nagasaki sozinho, claro que consegue ir".

Espero que a gente mantenha essa força de vontade, de ir para qualquer lugar, de saber se virar diante de enigmas como as linhas de metrô de Tokyo; de conseguir se comunicar, de aprender algo todo dia, de aproveitar bem o tempo. Não é apenas por ser bolsista, não. Conheci algumas pessoas que estavam à trabalho no Japão que viviam de uma forma positiva, aproveitando o que o Japão tem de bom e sem generalizar o que pode haver de ruim. Como se diz carpe diem em japonês? Ganbarimasu.

 
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