| Paz para Okinawa |
| Por Akihide Shiroma | |
| 15 de novembro de 2007 | |
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Uma terra da fantasia, seria em minhas palavras, Okinawa. Terra de meus antepassados e de muitos okinawanos que vivem mundo afora, pela sua beleza mágica. Por que os chamo de okinawanos, e não simplesmente de nikkeys? Há um fato que deve ser levado em consideração. Okinawa nem sempre foi parte do Japão. Essa província nasceu em 1879, quando então o país vivenciava o seu imperialismo. Até então, essa província existia como um reino independente, soberano até certo ponto. Em 1609 havia sofrido a invasão de Satsuma, atual Kagoshima, e mantido sob seu domínio pelas sombras, pelo governo reinante. Isso foi proposital, para que Satsuma pudesse usufruir dos lucros que o reino de Ryukyu obtinha com o comércio mercante pela Ásia. Okinawa, desde o seu início como província, é a mais pobre. A saída que muitos encontram é trabalhar fora da província (os dekasseguis), seja no exterior ou na ilha principal do Japão. E assim começa a diáspora Okinawana pelo mundo. Educação Inicia-se também nessa época a implantação da educação japonesa, afim de transformar os lequianos em japoneses. E não é exagero afirmar que a educação japonesa foi mais rigorosa em Okinawa que em qualquer outro lugar no país. Vale lembrar que nessa época o Japão vivenciava o imperialismo e que seu povo era criado para ser nacionalista, assim todos deveriam venerar o imperador. Isso chegava ao ponto de os diretores de escola serem obrigados a salvar a foto do imperador antes dos alunos, caso a instituição sofresse um incêndio. O retrato era guardado num altar a todos deveriam fazer reverência ao entrar numa escola. Outro aspecto da educação em Okinawa é o que poderia também ser chamada de lavagem cerebral. Seu povo foi forçado a abandonar sua cultura. Era terminantemente proibido usar a língua de Ryukyu, caso contrário, seria razão para ser castigado. Segunda Guerra Mundial Há uma frase em que diz que tudo o que podia ficar de pé, deveria lutar. Okinawa seria a última linha de defesa contra os americanos antes da entrada destes no território japonês. Por isso, a ilha deveria se sacrificar para o governo ganhar tempo em sua negociação, para que tivessem integridade do territorio e manutenção do trono de Hirohito, frente à derrota iminente. Súditos que pensavam serem leais, acabavam gerando a desconfiança dos oficiais do exército japonês. O fator histórico de Okinawa é cultural-linguístico, já que as pessas ainda falavam no dialeto, pelo menos entre os mais íntimos, fez com que os oficiais pensassem que estes eram espiões dos americanos.
Algo curioso na guerra de Okinawa é que a população local foi recrutada para completar as forças do exército. Além dos "escravos" trazidos da Coréia e da China, a população local tinha de trabalhar com o exército, seja na construção de bases, seja para carregar alimentos e outros. As estudantes colegiais foram recrutadas para servirem de enfermeiras. E os hospitais do exército, depois dos bombardeios, estavam no sub-solo, não em estabelecimentos preparados. Eram grutas que foram adotadas como hospitais. Não havia paredes estre os setores. Eram operações feitas lado a lado com cadáveres ou feridos a espera de tratamento. Com a pouca quantidade de equipamentos, não havia como dar tratamento adequado a todos os feridos, e muitos descontentes descarregavam sua ira nas pobres estudantes, que tinham de fazer um trabalho com as quais não estavam habituadas, acompanhando cirurgias, feitas cruamente, com os pacientes a gritar, vendo-os terem seus membros separados dos corpos, por já estarem se decompondo. Grutas Okinawa, por sua formação a base de corais, é uma expressão estranha, mas sua formação rochosa não mente, é rica em grutas, cavernas subterraneas naturais. O que muitos moradores utilizaram como refúgio durante a guerra. Não se pode esquecer de mencionar aqui que muitas vezes o exército compartilhava essas grutas, ou chegavam a tomá-las dos que lá estavam, o que é ironico, já que o exército expulsava o seu próprio povo da gruta para se refugiar, deixando-os à mercê do exército inimigo. Quando juntos da população civil, os soldados chegavam a forçar a morte dos bebês que choravam, para não serem descobertos pelos inimigos. A guerra começou na região central da ilha, e foi em sentido sul. O exército japonês ia recuando, de gruta em gruta, até o ponto mais ao sul. Sem dizer é claro, como as grutas eram obtidas. Junto deles, iam os civis, recrutados como serventes, carregando mantimentos e munição, alem das estudantes enfermeiras. Suícidios Na propaganda feita pelos japoneses sobre os americanos, há uma frase "Kichiku-beihei". No qual chamam de mosntros os soldados americanos. De que as familias seriam executadas e as mulheres envergonhadas e então mortas. O resultado foi fazer com que executassem suas famílias com as próprias mãos antes que sofressem mais. Há relatos de sobreviventes de como isso aconteceu. Um exemplo disso é o que teria ocorrido nas lhas de Kerama, onde os aldeões foram chamados para se reuniar no centro da vila, para que morressem juntos. A bomba programada para explodir falhou e não foram todos que morreram. Uns sobreviveram por mais algum tempo, outros para contar a história.
Outro caso seria de que os soldados entregavam as bombas aos moradores. Traição Pequenos detalhes como estes, de que os soldados tiveram relação direta com a morte de civis está sendo retirada dos livros didáticos. E, para ser sincero, nunca vi as pessoas daqui, que são tranquilas, bondosas e gentis, se irritarem tanto com um assunto. A guerra destruiu várias vidas. Mas o pior de tudo foi a traição sofrida por aqueles que acreditavam ser sua salvação seguir o imperador, assim como acreditaram ser melhor voltar ao domínio do Japão, após a soberania americana. Sendo assim, sentem-se triplamente traídos. Primeiramente, pelo abandono à ilha após a guerra, depois, pela não-retirada das bases militares americanas do arquipélago, mesmo após o retorno à soberania japonesa, e por último, pela decisão do governo de apagar dos livros didáticos a história de Okinawa. O povo desta ilha ama a paz, mais do que tudo. Os idosos, que viveram o inferno em terra não demonstram qualquer resquício da guerra, como rancor, melancolia. Vivem sua vida e sabem aproveita-la mais que ninguém. São pessoas que dão lição de vida, sem demonstrar as mágoas do passado, tentando manter a harmonia ao seu redor.
Retirar pequenos detalhes dos livros didáticos, transformaria os relatos destes idosos, que só se abriram depois de muito tempo, mostrando suas feridas, em meros histórias de carochinha. Isso porque tudo o que está nos livros didáticos, aprovados pelo Ministério da Educação é oficial. |
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